quarta-feira, outubro 29, 2014

E o Adeus?

Chovia muito. Chovia a potes, cântaros. Chovia mais do que todas as expressões usadas para descrever uma grande chuvada.
Os dois, de roupa encharcada, cabelos molhados, olhos embaciados pelas gotas de água que lhes caíam em cima. Os dois a olhar um para o outro no meio daquele dilúvio. Nem um, nem outro mostrava intenção de entrar em casa. Nem um, nem outro sabia como, ou, queria sair dali. O verdadeiro dilúvio estava a acontecer dentro deles. Sentiam tanto um pelo outro, mas não o suficiente para o saber expressar. Sentiam tanto um pelo outro, mas havia qualquer coisa que os impedia de abrir o espaço necessário para sentirem ainda mais.
O céu chorava por eles a tristeza da separação quase certa. Eles continuavam a olhar-se, a tocar-se, a sentir-se. Para quê? Porquê? Larga-me! Sai!
Nenhum dos dois se movia. Pensavam que se se deixassem estar tempo suficiente, uma ponte se construiria entre o abismo. E, por muito frágil que a construção fosse, lentamente aprenderiam a caminhar por entre as suas fragilidades e criariam assim as suas memórias, juntos.
Mas não foi assim. Estava tudo escrito de outra forma.

Parou de chover. Eles soltaram-se um do outro. Viraram as costas e caminharam em sentidos contrários. Não disseram adeus.

terça-feira, outubro 07, 2014

O Que Morreu e O Que Ficou

E como uma vez alguém disse: "O que mais custa não é tanto lembrar - é não esquecer. O que é que se faz com o que nos fica na cabeça, quando já não há nada para fazer?"

Até há bem pouco tempo, não sabia como responder a esta pergunta. Não sabia o que fazer com o que me ficou na cabeça. Na verdade, continuo sem saber responder. Penso que nem tu, nem eu, alguma vez saberemos.

Existe um tempo. Existe um espaço. Existiu um tempo. Existiu um espaço. Tudo era diferente: o sabor da comida, a percepção de um filme, a diversão, o cheiro de um cheiro, o prazer em todas as suas formas. Quando a vida decide dar uma cambalhota e remexer as marionetas da nossa cabeça, começa a mudança de percepção. Quantas destas teremos de aturar enquanto respiramos? Boa pergunta. Muitas de certeza. E em cada uma delas, haverá um sentido escondido.
Sentidos escondidos. Tão bom quando eles se revelam. Tão mau os caminhos que se tem de percorrer para os encontrar. Sim, óbvio. O caminho é essencial, o caminho é que nos molda. Mas também somos nós que escolhemos e fazemos com que este seja mais curto ou mais comprido. Por muito que pareça que nada podemos fazer, é mentira. A maneira de encarar as bifurcações permite criar este ou outro atalho, encontrar mais esta ou aquela parede.
Fácil falar quando a tempestade passou. Fácil dizer para agirmos de acordo com o que é melhor para nós. Mas quando a cambalhota acontece, cada um é que define o seu tempo, cada um reage como é capaz, cada um... Somos todos diferentes.

E o que é que se faz com o que nos fica na cabeça? Testa-se. Toma-se uma atitude para perceber se é realmente algo com presença suficientemente forte para nos afectar as entranhas. Se for forte, está tudo fodido. Se não for, é como que uma limpeza da alma. O sol ou as nuvens aparecem todos os dias, mas já não se olham como antes. O sabor da comida ainda trará consigo uma lembrança, mas aprende-se a saborear de novo. Um filme será apreciado, sem que a fotografia que de nós lá encontramos, traga mágoa. A diversão é vivida com uma nova intensidade, mais genuína. Um cheiro... Um cheiro vai sempre transportar-nos a um momento do passado. Fecha os olhos, sente e sorri até ele desaparecer do ar. O prazer, esse volta, renova-se e os sentidos agradecem todas as novidades.

Não se apagam memórias, há sempre algo que nos fica na cabeça. O segredo? Encontrar o sentido escondido. Aprender a transformar a memória que nos espreme os sentidos, numa lembrança boa, num segundo permitido de reminiscência saudável. Que nos faça lembrar que hoje, somos isto, por culpa dessa memória. Que se pense em forma de cliché: que sou mais forte, que é isto que quero ser, que me descobri.

O que morreu, morreu porque tinha de morrer.
O que ficou, ficou porque foi bom.
A única certeza: A vida vai-se escrevendo certa por linhas tortas.

quarta-feira, outubro 01, 2014

Entre as Onze e a Meia Noite

Lá estava ele.

Entre as onze e a meia noite, chegava sempre o momento de fumar o seu cigarro na varanda. O único do dia, o único que não deixou que a outra lhe tirasse. Compromissos fazem-se. Compromissos pagam-se. Tem conseguido cumprir, menos quando está com os copos e quando a outra fica em casa a dormir. Quando bebe fuma e quando fuma bebe. Sim, para o cigarro não se sentir sozinho a percorrer as suas entranhas, ele junta, ora gin, ora cerveja. A outra aprendeu a tolerar, apesar de ficar sempre a remoer sobre o porquê daquele vício quando o vê passar pelo sofá entre as onze e meia noite, em direcção à varanda.

Lá estava ele.

A acender o cigarro depois de ter dado o primeiro gole de cerveja ou de gin. Olhou para baixo, para a roupas que trazia vestidas e não se reconheceu. Compromissos fazem-se. Compromissos pagam-se. A outra deu-lhe tanta roupa nova, tem de a usar senão parece que não gostou. Para além disso, já reparou que quando veste alguma das suas roupas antigas, a outra não é capaz de o elogiar.

Lá estava ele.

O cigarro vai a meio. O copo já está vazio. Ele já não se sente no presente. Sente-se acorrentado a um futuro que não deseja. Parece que tudo aconteceu de um dia para o outro. Pensava-se feliz com a outra, pensava-se feliz com as decisões que tomou para si. Só agora percebeu que tudo o que fez, tudo o que criou, foi sob pressão. Uma pressão que ele gerou por si próprio, uma pressão desnecessária. Deixou-se apoderar por um medo inconsciente de ficar sozinho. E agora? Compromissos fazem-se. Compromissos pagam-se.

Lá estava ele.

Com o olhar perdido no espaço. O cigarro apagou-se sozinho. Voltou a si quando reparou que a luz da sala já não estava acesa. A outra foi-se deitar. Não lhe disse nada ou talvez tenha dito. Sei lá. Ele estava ali, mas a sua alma pairava bem longe. Será que a outra reparava se ele fugisse? Sim, claro que reparava. Mas ele tem a certeza que ela sabe que ele nunca foi seu. Deu apenas a entender que lhe pertencia por um curto espaço de tempo. Ingénuo. Só agora chegou à conclusão que a utopia não existe e que se existir, acontece naturalmente. Não assim. Não como ele agiu. E lentamente a ficha cai.

Lá estava ele.

Ancorado à infelicidade que tem vergonha de admitir.
Entre as onze e a meia noite.
Todos as noites.
A fumar o cigarro que a outra (ainda) não lhe tirou.
A beber a cerveja ou gin.
A relembrar tudo o que deixou para trás, tudo o que perdeu.
A desejar nunca ter afastado o verdadeiro amor da sua vida.
Porque no fundo, sabe que só esse amor, que nunca esqueceu, o acompanharia sempre, na varanda, com o cigarro, a cerveja ou o gin.