domingo, novembro 19, 2023

Liberdade e páginas em branco

 


Porque às vezes é no meio do caos que encontramos o que precisamos. 

quarta-feira, novembro 15, 2023

Como os gatos

Quanto mais tempo passa

e o abismo entre nós já nem de ponte se atravessa, 

mais claro se torna que vivemos várias vidas. 


Talvez sejam sete.

Como os gatos. 

sexta-feira, novembro 03, 2023

Não são só os elefantes que fazem viagens

Contemplo um passo no seu compasso.

Admiro fatalidades que assim se estipulam.

Um passo de cada vez.

Em frente.

Esquerda.

Direita.

Marchamos.
Marchamos.


E um dia...
Chegamos. 

quarta-feira, novembro 01, 2023

Habitua-te ao acaso

O dia estava cinzento. Não que isso importasse. Todos os dias estavam cinzentos desde há uns tempos para cá. Mesmo com o sol a brilhar lá fora, as nuvens tinham agora lugar cativo dentro de ti. 

Antes, quando te sentavas no teu sofá de manhã a beber café, ouvir música e a deixar o sol aquecer-te a cara, sentias uma paz profunda. No entanto, sempre soubeste que essa paz era efémera e que te podia ser roubada a qualquer instante. 

Não gostas desta capacidade (característica? aptidão? idiossincrasia?). Sempre te causou algum receio. Por muito que às vezes pareça que o desejamos, nós não queremos ver o futuro. Nós não queremos saber o dia de amanhã. Só nos causaria dor (desalento? desespero? agonia?). Cada vez mais achas que tens em ti uma percepção distinta das pessoas e do mundo à tua volta. Isto não é necessariamente bom. Acabas por carregar um fardo desnecessário. Talvez por isso te tenham aconselhado uma trip de cogumelos mágicos de quando em vez. A inteligência emocional sobrecarrega-te. Será que todos partilham de tanta empatia pelos sentimentos e emoções dos outros como tu? 

A resposta é insignificante. 

O que agora sabes permite-te atravessar os trilhos impostos pela vida com, não diria mestria, mas uma agilidade que ganhaste a percorrer os trilhos anteriores. Não necessariamente mais fáceis, mas certamente com um nível de complexidade bastante inferior. Agora tens bagagem, tens cartas na manga e sabes melhor como funcionas para te tentares proteger das constantes armadilhas. Sim, quando somos mais novos temos problemas e desafios ininterruptos. Achamos que nada poderá ser pior, que não saberemos lidar com isto ou com aquilo no futuro. Não sabemos nada. Os problemas e desafios ininterruptos acompanham-nos sempre e tornam-se cada vez mais complexos. A nossa capacidade para lidar com tudo é que é inevitavelmente maior. 

Navegamos pela vida enquanto aprendemos a navegar. 

E, se tivermos sorte, habituamo-nos ao acaso, lembrando-nos sempre que esta vida são dois dias (e o Carnaval são três). 

terça-feira, outubro 31, 2023

Feeling big, small, scared, at ease


 

All of our stories in her story. E a noção cada vez mais presente de que isto tudo passa demasiado rápido. 

segunda-feira, outubro 30, 2023

Entre os 34 e os 35

Apetece-me ir a concertos.

As coisas evoluem ou morrem.

Dehors il fait du vent. Chez moi, je fais des mots. 

O papel se for apanhado pela água, desfaz-se. Eu, se for apanhada por ti, tens sorte. 

Decorar a árvore de Natal com aviões de papel. 

Metal heart?

Saramago também só publicou depois dos 60 anos. 

Con - su - mismo.

Kleine Fortschritte aufschreiben. 

A love song about overthinking?

Find a girl that'll make your head spin. Find a boy that'll take you out dancing. 

Pinguins imperadores.

Timings são tão importantes como as linhas. 

Waking life.

Some people are places to live in. 

Fascínio com a memória e os seus truques.

Eu nem sequer gosto de ti. 

Se o queres... Mostra!

Sobre ter calma e gerir expectativas. 

Vamos dissecar-nos mutuamente?

Detalhes que a uns irritam e que a outros fazem querer voltar.

Temos um problema ou a solução?

Quem lhes dera entrar no teu planeta.

Não mais sem sentido. 

Também isto vai ser uma história. 

Queria falar contigo, mas é tarde. Queria falar contigo, mas não sei se é melhor não falar. Queria falar contigo, mas és um estranho sem ser. Queria falar contigo e devia simplesmente fazê-lo. 

Lauryn Hill always. 

Fazer anos e...

domingo, outubro 29, 2023

sábado, outubro 21, 2023

(Quase) Todas as minhas coisas maravilhosas

O barulho da chuva a cair lá fora.
Ouvir uma música que não ouvia há muito tempo e ser transportada para outro lugar.
Beber água com gelo.
As unhas acabadas de pintar.
Ganhar consciência e fechar capítulos. 
O riso deles. 
Brincar. Provocar. Saber que posso. 
Ter consciência de que em menos de um minuto tudo pode mudar. 
Cabelo molhado, acabado de pentear. 
Mousse de leite moça.
Comida da mãe. 
Dormir a noite inteira. 
O mar.
Liberdade. 
Ser tia Joana.
Céu azul.
Café.
Música ao acordar.
Música a caminhar.
Música a cozinhar.
Música a tomar banho.
Música em omnipresença. 
Criar playlists.
Perder-me nos diálogos de um filme. 
A minha cama feita de lavado.
Dançar sozinha na sala.
Dançar numa sala cheia de gente e sentir-me sozinha. 
Fechar os olhos em cima da bicicleta.
Um segredo dito ao ouvido.
Festinhas que arrepiam. 
Olhos verdes.
Estar a ver um concerto e sorrir.
Um mergulho no mar e por lá ficar até a pele enrugar. 
Um beijo salgado. 
Quando vejo o T. depois de muito tempo e falamos sem falar. 
Uma conversa que faz as horas voar.
Fotografias antigas.
O banho depois do ginásio.
A voz do Alex Turner.
Passeios por entre o verde.
Acabar um livro que não queria que chegasse ao fim. 
Descobrir como usar uma palavra nova. 
Ir ao supermercado noutro país. 
Acordar sem despertador.
Quando o avião aterra.
Cozinhar, escolher filme, sofá, só eu.
A minha casa acabada de arrumar.
Mandarinas doces e sem caroços. 
Dar um passo de cada vez.
Quando me dizem que sou especial. 
Pasta quando as hormonas pedem.
Escrever em papel.
Uma voz especial dizer o meu nome. 
Ficar na cama de manhã. Por tempo indeterminado. Acompanhada. 
Perder a noção das horas a olhar para livros. Não comprar nenhum.



Saber que esta lista nunca terá um fim. 

domingo, outubro 08, 2023

Acto 2 - as histórias que se contam

Gosto muito de falar de mim e tenho sede de conhecimento. Vais achar que te apaixonaste por mim. Não vais perceber (logo) que sou narcisista.   

Estou aqui só de passagem. O meu voo foi cancelado. Vou falar contigo sobre a tua cidade, sotaques, palavras em português e crypto. Vais sorrir durante 2 dias seguidos. 

Gosto de ser excessivamente pateta. A minha maneira de falar vai-te irritar. O meu humor não vai ser compatível com o teu. Vamos beber demasiado vinho. Vais detestar encontrar o meu relógio partido na cómoda do teu quarto. 

Quero ir viver no campo. Vais adorar o meu gosto musical. Vou-te mostrar um álbum que vais gostar, mas que rapidamente vais voltar a esquecer. Não vou conter a surpresa quando me começares a contar sobre o teu portefólio. Vais-me pedir para falar em holandês e vais-te surpreender com tudo o que percebes. 

Tenho uma cabeça cheia de ideias. Sou a pessoa que pior te conhece mas que melhor te compreende. Vou-te preparar cocktails de verão. Tu vais-me tirar uma fotografia enquanto escrevo um poema sentado no parapeito da tua janela a fumar um cigarro. Vamos cantar em alemão. Vou tentar ensinar-te finlandês. Vou falar uma hora ao telefone com a senhora que me ajudou quando vivi nos Estados Unidos. Vou-te inspirar. 

Sou médico e gosto de o mostrar. Vais-te sentir incomodada com perguntas que faço e coisas que digo. Vou despertar em ti uma onda de mudança.

Nunca tenho oportunidades destas. Vou-me deixar hipnotizar pela tua forma apaixonada de falares sobre os teus interesses. Vais cringe. Vais guardar a peripécia só para ti. Vais-me pedir desculpa eventualmente e reequilibrar a tua mente.

Gosto de tudo o que tenha açúcar e sou feito de açúcar. Vou-te mostrar que nem tudo é impossível e ensinar-te que te podem tratar bem. Vais concluir, mais uma vez, que quando é, é e quando não é, não há nada a fazer. 

Somos tão iguais, mas também tão diferentes. Vais comprar um livro para mim que nunca me vais dar. Vais escrever a dedicatória e esperar o momento certo. O momento certo não chega. Sabes que tens de te proteger, sabes que isto se pode transformar em algo pouco saudável. Admiras a tua maturidade emocional. Admiras a tua capacidade de saber sair quando o momento chega. Mostro-te que há muitas ligações bonitas à tua espera. 

Aventura. Soberba capacidade de fazeres o que te propões. Hoje em dia. 

Sou igual a ti. Tu és igual a mim. Por isso mesmo temos de nos afastar. Deixo-te dois copos de vinho de tamanhos diferentes em casa. Não tens espaço para eles no armário. Criamos um lugar seguro. Falamos da Alda Lara, de concertos e dos discos que pomos a girar. Faço-te perguntas que te incomodam e vais começar a dar mais atenção aos teus sonhos. Despedimo-nos sabendo que nunca mais nos vamos ver. Ambos sabemos que é assim que tem de ser.  

Gostas da forma como pronuncio algumas palavras. Não gostas da minha falta de maturidade. Percebes que não há forma de contornar o que não é natural. E está tudo bem. 



Acto 3

sábado, outubro 07, 2023

Quero percorrer as tuas pernas com uma caneta

Vou começar nos calcanhares.
Subir devagarinho até aos teus joelhos,
depois descer, 
depois voltar a trepar.

Traço uma linha pela tua coxa. 
Uma só.
E a tua barriga oscila. 

Esboço estradas infinitas.
Primeiro na perna esquerda.
Depois na perna direita. 

Já não vejo o teu sorriso tímido.
Contemplo esses olhos que me arrebatam. 

Contorno agora a tua barriga.
A minha mão é guiada pela tua respiração.

Sei que me estás a pedir um beijo.
Quero muito dar-te um beijo.

Não dou.
Tu não me puxas para ti.

Vá, vamos ficar neste limbo.
Procura afeto noutros corpos.
Finge que a tinta da caneta é transparente.

Finge.
E eu finjo contigo.

sexta-feira, agosto 25, 2023

Discrepâncias

Ela era poesia. 

Ele não sabia ler. 


domingo, julho 16, 2023

Kintsugi

Atiro-me ao mar,
a água gelada faz-me parar de respirar.

Deito-me com todos os fantasmas,
revisito histórias sem correr perigo.

Atiro as fotografias ao fogo,
junto as cinzas num pote de café antigo.

Apanho todas as migalhas.
Não, nem aos passarinhos satisfazem.

Olho para o relógio,
a mensagem não vem,
não virá,
nunca mais. 

Sinto a imensidão deste vazio dentro de mim,
a fissura é hoje uma cratera.

Fecha.
Cola.
Pinta de ouro.

Encontro-me com as sereias que cantam,
mergulho bem fundo, 
elas puxam-me com as suas vozes.

E eu vou.

Onde a luz já não chega.
Onde os fins do mundo se encontram.

E deixo-me ir.

Até quando?

Até que me saibam ler. 

sábado, julho 15, 2023

Fixo

E se todos os aviões ficassem presos, estáticos no céu?

quarta-feira, junho 07, 2023

Blah

Down in the deep the honey is sweeter

Largar tudo o que é oco. 

Let go of the doubts, say yes
Let it soak up into the flesh
Never had this kind of nutrition 

Cravar um olhar.
Ocupar toda a pista de dança.

Darker the berry, sweeter the fruit
deeper the wounded, deeper the roots

Mergulhar.

Higher than a motherfucker

Em mim.

quinta-feira, junho 01, 2023

You turn me on

  

          Everything is collapsing, dear                                                           All moral sense has gone                                                                                                     It's just history repeating itself                                                                                                                                                        And babe

quinta-feira, maio 25, 2023

Nina

Gostava de ser uma voz gravada numa canção para alguém daqui a 70 anos ouvir e (des)aprender algo sobre o amor.

domingo, maio 14, 2023

Corda bamba

Confia, disse ele.

Somos sempre jovens.
Mesmo com barbas brancas,
mesmo com rugas formadas por choros e sorrisos,
mesmo quando precisamos de uma mão para descer as escadas.

Precisamos sempre de uma mão para descer as escadas.
É aconchegante. 
Nem sempre a temos.
A maior parte das vezes vamos sozinhos. 

Andamos sozinhos à procura de respostas.
À procura de perceber a passagem do tempo,
à procura de entender de que se faz o amor afinal,
à procura de desatar as nossas falhas,
à procura de olhar para tudo com mais humildade,
menos certezas, mais inocência. 

Dá a mão a ti mesma. 
Observa os adultos a andarem de um lado para o outro,
atarefados, concentrados em qualquer coisa que não consegues compreender. 
Preocupados, assoberbados. Com quê?
Ele não param, não se encontram consigo mesmos
Parar traz verdades que não têm coragem de encarar. 

Segue.
Segue assim tu. 
Ouve as canções de embalar.
Prende as palavras que te chamam a atenção.
Deita fora o receio de te mostrares vulnerável. 
Caminha sobre a corda bamba com mais firmeza.
Segue assim. 

Não queiras descobrir todos os sentidos escondidos.

Não já. 

sexta-feira, maio 05, 2023

Isto não se chama afasia

Esquece as filosofias,
Presunções, sabedorias.
Levada por impulso,
Escrevo linhas em forma de verso.
Escrevo para me salvar de algo.
Talvez para me esconder do universo.
 
Percebo que escrevo para ti.
Tento parar, não consigo.
Tira as tuas mãos de mim,
Vamos lá parar com as fantasias.
Isto não tem sentido.
 
Parar? Travar?
Não.
Não eles. 
Não agora.
 
Não agora que já te vi ao fundo das escadas.
Não agora que parei à tua frente e te olho nos olhos.
Não agora que a pressão magnética me obriga a dar-te um beijo.
 
O mundo congela.
 
Os teus lábios encontram os meus, mordem os meus, comem os meus.
A tua língua brinca com a minha, pede-me mais.
As tuas mãos descem pela minha cintura,
apertam-me, deslizam, 
apertam-me, sobem, 
apertam-me contra ti.
Agarras-me o cabelo para trás, beijas-me o pescoço.
Solto um gemido ao teu ouvido,
apertas-me com mais força.
Envolve-te em mim, prende-me os braços,
Faz com que me contorça.
 
Roupa arrancada espalha-se pelo chão.
Tocas em mim, vês como me deixas.
Pego em ti, vejo o que te faço.
Brincamos por entre beijos,
suspiros e sussurros.
Corpo contra corpo.
Sentidos envolvidos são já poucos.

 
Levados por instintos.

 
Parar?

Talvez.


Se formos loucos.

segunda-feira, maio 01, 2023

Lucidez

A cabeça da Joana 
está cheia de aviões.
São todos de papel
andam por lá aos encontrões. 

Sentada nas estrelas
fica a vê-los voar.
Às vezes agarra um com força
e fá-lo parar de girar. 

A cabeça da Joana
está cheia de passarinhos.
São todos coloridos
andam por lá aos burburinhos. 

Sentada nos jardins
fica a ouvi-los chilrear. 
Às vezes canta com eles,
outras deixa-se só encantar. 

A cabeça da Joana
está cheia de tubarões.
Todos são feitos de cera,
algo feios e dizem palavrões. 

Sentada nos corais
assiste aos bailes sobre a areia movediça.
Às vezes vai dançar com eles.
Depois volta.
O chão mais firme 
e ela,
mais castiça. 

sexta-feira, abril 21, 2023

Corvo

Cor negra.
Mexes-te depressa.
Assumo que procuras um cadáver.
É isso que conheço da tua espécie.

Porquê?

Uma qualquer memória de infância. 

Terá sido um jogo?
Uma conversa?
O coração das trevas?

Assumo que te vou ver a debicar um globo ocular.
Assumo que vou ver sangue e nervos.
Assumo que andas de mãos dadas com a morte. 

Encontro-te pela cidade e pelos campos.
Tu nem olhas para mim, andas ocupado nos teus afazeres. 
Eu decido dar-te importância, conteúdo e essência. 

Equivocada sigo. 
Ancorada a ilustrações surrealistas.
Atracada a sentidos que só se comprovam no meu imaginário.  

Cor negra.
Mexes-te depressa.
Assumo que procuras um cadáver.
É isso que conheço da tua espécie.

Está frio e chove.
Paras à minha frente.

Olho para ti.
Tu olhas para mim. 

A minha espécie vira tua,
a tua espécie vira minha.

Damos as mãos.
Formam-se estradas. 
Vagueamos por contratempos. 

Eu sempre fui negra
e tu sempre formaste um pedaço de mim.