quarta-feira, julho 01, 2015

Verão

Lord of the flies

Homo Faber

1984

Indecision

A Insustentável Leveza do Ser

Admirável Mundo Novo

sexta-feira, fevereiro 27, 2015

Tranparente Para Si

Pouco me conhece.
Pouco de mim viu.
Cada palavra que projecta na minha direcção é verdadeira. Cada pequeno facto que balbucia atinge um ponto certo. 
Todas as vezes que fala comigo faz com que se forme um nó na minha garganta. Será pela experiência de vida? 

Será porque no fundo sou mesmo transparente e o meu sorriso é afinal fácil de ler?

sexta-feira, janeiro 16, 2015

You make me smile

"Why everything that's supposed to be bad make me feel so good?
Everything they told me not to, is exactly what I would
Man I tried to stop man, I tried the best I could"

domingo, janeiro 11, 2015

Um dia peço-te em casamento

Bastou um telefonema.  Do outro lado ela ouviu a palavra "sim" e todo o seu corpo se inundou de adrenalina. Sorriu de felicidade. Quase chorou de felicidade. Parecia uma barata tonta a andar de um lado para o outro pela casa. Pôs a tocar todas aquelas músicas que sempre a encheram de boa disposição, aquelas músicas que dizem "ganhaste".
Olhando para trás, olhando para tudo o que viveu, tudo o que passou... Sim, parece que estava tudo escrito para ser assim. O timing foi o ideal - estava tudo na mesa por esta altura para ela se decidir pelo caminho certo. 
Não foi difícil decidir. Tomou finalmente as rédeas da sua vida e ganhou ainda mais força ao saber que todos os que realmente importam, a apoiavam incondicionalmente. Começou tarde, mas começou. E ainda há tanto para escrever nesta história. O ponto de partida foi agarrado e agora? Agora não há meta, porque ela sabe que não há nenhum limite ao qual se queira impor. Porque é que não foste sempre assim? Porque é que antes não acreditavas que podias dominar o mundo? 
Agora ela acredita. Agora, os pés estão assentes na terra, o equilíbrio foi atingido e não, não há nada nem ninguém que se possa meter no seu caminho. 

No outro dia dei por mim a olhar para ela em puro estado de hipnotismo. Ela só se estava a arranjar para sair para o trabalho, mas eu tinha à minha frente a imagem mais bonita do mundo. Enquanto trocava de camisola, penteava o cabelo, punha os anéis e o relógio ... Todos esses passos mundanos transformaram-se numa coreografia mágica, porque, como sempre, ela ia abanado a ancas para aqui e para ali ou fazia aquele movimento com os ombros daquele jeito só seu, ao ritmo da música que não dispensa ouvir logo pela manhã. Ela é linda e é minha. Ela é de outro planeta. E como eu a encontrei, ou melhor, como consegui que ela visse em mim alguém merecedor de observar todos os seus jeitos e manias, permanece um mistério. Ela podia ter quem quisesse, porque eu bem vejo como a olham, como gostam daquela cabeça aluada, divertida, inteligente, sempre com uma resposta na ponta da língua. Não a provoquem, ela tem sempre resposta e ganha qualquer discussão. E quando não ganha com os pontos todos, não tem vergonha de admitir que falhou. Ela atrai porque é linda, porque brilha e depois fala e arrebata corações, porque brilha ainda mais. 

Ela é minha. Não, não é. Ela é só sua e eu só a tenho porque aprendi que aquele fogo tem de ter toda a liberdade para arder e, só assim, é que ela será feliz. Sendo de alguém, mas sabendo que pode ser sua, sempre. Só me resta agradecer aos que não a viram. Aos que a tiveram, mas que não souberam lidar com a força que ela é. E, como sempre, se não a vêem, ela perde o interesse. Agradeço a todos os caminhos que ela percorreu, pois cada passo que ela deu, foi uma mudança de direcção para se aproximar cada vez mais de mim. Nem eu, nem ela sabíamos... Só no final (que nunca é o final), é que tudo faz sentido.

Um dia vou-lhe pedir em casamento, sabendo que nem aí ela será minha. Tê-la, é sobreviver às discussões de perder a cabeça, sabendo que cada uma delas transforma a nossa visão um do outro em algo maior e melhor. Tê-la, é conhecer o pináculo de fidelidade em todas as situações com que nos possamos deparar.  Tê-la, é saber que ela acredita que um dia vai andar comigo de mão dada, quando eu provavelmente já precisar também do apoio de uma bengala na outra mão. Porque sei que ela acredita no amor, sei que ela é romântica mas não o diz a ninguém. Sei que vou ter uma melhor amiga até que um de nós adormeça e não acorde mais. 

Ela é minha. E logo eu, a tenho a ela. Logo eu, que nunca joguei na lotaria. 

terça-feira, janeiro 06, 2015

2015

Trambolhões induzidos. 
Desejos reprimidos. 
Caminhos abertos.
Porta fechada.

Eu.
Hoje.
Agora.
Aqui.

Renovados os sentidos.
Esperas ultrapassadas.
Tudo comigo.
Nada com outros.

Eu.
Hoje.
Agora.
Aqui. 

O novo ano é mero simbolismo. 

segunda-feira, dezembro 29, 2014

Ando à Procura das Peças que me Caíram do Bolso

Por agora chega.

Por agora, deixa-me estar até que eu substitua a vontade de estar sozinha por outra vontade qualquer.

Por agora chega.

Por agora, preciso de encontrar o pedaço de mim que se desfez. O pedaço que se desfez precisamente no dia em que o pensava ter colado.

Por agora chega.

Por agora, espero que a corrente de acontecimentos inesperados já se tenha ancorado algures por aí. Bem longe de mim.

Por agora chega.

Por agora, vou ter as piores conversas comigo mesma. Vou fechar-me dentro do casulo. Enrolar-me em maus pensamentos.

Por agora chega.

Por agora, vou deixar que ela ou que o outro me dêem melodia melancólica. Vou deixar que eles me digam que já se sentiram assim.

Por agora chega.

Por agora, quero fumar um cigarro a olhar para o céu. Ver um avião a passar e imaginar que o rasto de poluição que deixa atrás de si, é também o rasto de tudo o que estou a tentar largar. E que, assim como o rasto do avião, a seu tempo, desaparece. Esvai-se no céu lentamente de uma forma imperceptível ao olhar desatento.

Por agora, deixem-me em paz.
Só eu posso reconstruir este puzzle.

terça-feira, dezembro 23, 2014

Queda Livre

E assim, de um momento para o outro, ela decidiu carregar no botão de saída de emergência. Nos treinos foi ensinada a pensar rápido, reagir de cabeça fria, sem hesitações. Durante aqueles milissegundos de divagação inevitável e autorizada, sentiu os pulmões encherem-se de ar e deixou entrar mais do que a percentagem recomendada de oxigénio no cérebro. Todas as imagens ficaram bem mais claras. As ideias pixelizadas ficaram tão nítidas que parecia que ela as podia agarrar. Era isto que era preciso? Um momento de vida ou de morte para perceber que só se pode/deve agarrar ao que realmente vale a pena?

Carregou no botão... 

Agora era esperar pela altura certa para abrir o pára-quedas. Mais uns milissegundos autorizados de divagação. Ela é tão pequena no meio de tudo o que existe no mundo. É pequena, mas sabe que faz a diferença no mundo de uma ou de outra pessoa. E, só por essa razão, vale a pena manter-se por aqui. Sem modéstia. Os pequenos mundos que enche agradecem-lhe e isso basta-lhe. Os mundos que fogem... Esses não merecem mais a sua atenção. 

Hora de abrir o pára-quedas.

Aterragem prevista num admirável mundo novo.

domingo, dezembro 21, 2014

Mensagens em Aviões de Papel

Se não olhasses para mim como quem diz para ficar.
Se não referisses uma, duas, três, dez coisas pelas quais passámos numa única tarde.
Se o toque repentino não fosse embaraçoso. 
Se não nos ríssemos perdidamente sem razão aparente, só porque cruzámos olhares. 
Se não completássemos as frases um do outro. 
Se não tivesses medo de estar sozinho comigo. 
Se me dissesses na cara para eu não me aproximar mais. 
Se não tivéssemos sido construídos pela cumplicidade. 
Se não sentisse que, tanto tu, como eu, procuramos uma desculpa para não cairmos num beijo apaixonado. 

Se fosse mais simples.
Se tivesse percebido logo.
Se não tivesse fugido. 
Se tu não saltasses tanto. 
Se tivéssemos encontrado o equilíbrio. 

E por só te querer a ti. A ti que já tive, mas não vi. Não olhei, não reparei. A culpa? Não é tua, não é minha. São ideias corrompidas por cérebros nublados. E agora? Agora... Foi.

Mandei um avião de papel na tua direcção... Entre lutas com o vento e a chuva, nunca chegará a ti.

sexta-feira, dezembro 19, 2014

Kausalkette

Konnte ich nicht mit weniger als 23 Worte erklären.

quinta-feira, dezembro 18, 2014

Heart is Skipping Beats

While the expectation of hearing a knock flowed, my heart skipped a beat.
I stopped, acknowledged and started laughing really hard. 
Looked at myself in the mirror, while a thought swirled into my mind and my heart skipped another beat. 
I uncontrollably lauged like crazy again. Had to pretend to be serious while passing by people in order to avoid questions about my, out of the blue, happiness. 
Locked myself in my room and lost count of the beats the heart skipped over and over. 
Nothing happened. My mind was in control of the motions and emotions and a simple thought was leaving me jumpy, messing with the blood pumping structure of my body.

I think I know the reason for all of this and it's no good of a reason at all. Still, it's something new, fresh, eye-opening. Whatever happened... Thank you, sweet mind. Now I know you're clear from the old demons and ready to welcome new ones.   

quarta-feira, dezembro 17, 2014

Agora é noutra Dimensão

Alguém lhe fez uma lavagem cerebral.

Thank you, come again!

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sábado, dezembro 13, 2014

Estive a Pensar em Ti

Não vou expor mais manias, intenções, ideias, realidades. Não vou ser indirecta, porque já nem o consigo fazer. Não vou dizer-te que só não vês porque não queres. Não te vou chamar. Não te vou sussurrar vontades ao ouvido. Não vou esperar por ti à porta do prédio. Não te vou sequer fazer rir. Não te vou mostrar a música nova que sei que gostarias. Não vou lembrar quando vesti a tua camisa. Não vou dizer-te para veres aquele filme que eu vi ontem. Não vou mandar mais mensagens com piada. Não vou jantar contigo. Não vou lanchar contigo. Não vou sorrir para ti. Não vou sorrir a pensar em ti. Não vou dizer-te mais que não posso. Não vou lembrar as noites. Não vou lembrar quando não me deixavas sair da cama. Não vou lembrar o dia em que apanhei um escaldão e tu não. Não vou lembrar que cantámos juntos. Não vou lembrar que dançámos juntos. Não vou lembrar o beijo que te dei de repente no pescoço. Não vou lembrar quando disseste que eu estava a derreter. Não vou lembrar os teus abraços de partir costelas. Não vou lembrar os beijos descontrolados enquanto alguém conduzia o carro. Não vou pensar na tua cara enquanto me despias. Não vou lembrar o olhar cúmplice que criámos. Não vou pensar na tua silhueta ao tirares a camisa. Não vou pensar nas tuas mãos. Não vou lembrar quando me deste a mão no restaurante. Não me vou lembrar que punhas sempre a música certa. Não vou lembrar que acendias velas. Não te vou contar mais as minhas histórias. Não vou ouvir mais as tuas histórias. Não vou lembrar como adorava o facto de odiares futebol. Não vou lembrar as gargalhadas constantes e simultâneas. Não vou lembrar as coisas em que acreditas. Não vamos dividir mais maços de tabaco. Não vou mais tropeçar na mesa ao lado do sofá. Não vou mais olhar para ti enquanto dormes. Não vais mais adormecer comigo por perto. Não vais mais pôr a mão na minha perna enquanto conduzes. Não me vou lembrar que és romântico. Não vais mais tentar saber o que se passa comigo. Não me vou lembrar das luzes do teu quarto. Não me vou lembrar quando cozinhaste de toalha. Não vou lembrar que às vezes nem precisávamos de falar.
Não vou lembrar como, de repente, por um pequeno instante, tudo pareceu certo.

Não me vou lembrar que hoje pensei em ti.

quinta-feira, dezembro 11, 2014

Mais Romance, Por Favor

Ontem vi um casal de miúdos sentado num banco de jardim. Trocavam gargalhadas, risos, beijinhos e carícias. Tudo isto, numa total ignorância do que se passava à sua volta. Aquele momento era deles e só deles. Faziam planos de "tu" e "eu, sem se aperceberem que eram já o pronome pessoal no plural: "nós". Mal eles sabiam que ali se decidia o futuro do mundo. Mal eles sabiam que aquele "nós", lhes iria trazer a maior dor que alguma vez sentiriam; quando o momento se for e forem obrigados a pensar de novo em forma de pronome pessoal no singular.
Para eles, nada disso interessa agora. Não trazem bagagem consigo. São apenas abraçados pela pureza do que lhes está acontecer. Ainda bem que assim é. Ainda bem que, pelo menos uma vez na vida, somos capazes de sentir algo sem deixar que o passado corrompa atitudes, pensamentos e sentimentos. Têm todas as primeiras vezes à sua frente. O primeiro envolvimento, a primeira ida ao cinema, a primeira dança, o primeiro "amo-te", a primeira discussão... Vão passar por todas as primeiras vezes sem dar por elas. O valor desses bocadinhos só será apreciado quando lhes começar a fazer falta. Quando começarem a ser corrompidos pela sua própria cabeça, que sendo humana, cumprirá bem o seu papel de instalar a dúvida, a tentação, a vontade de procurar novas sensações. Nada é para sempre, mas também acredito que nada realmente acaba. Fica sempre algo, podendo esse algo servir para alguma coisa ou para absolutamente nada. Mas nada acaba mesmo. 

Invejo os miúdos não corrompidos. Invejo os miúdos que se apaixonam com toda a pureza que só os curtos anos de vida possibilitam. Não digo que não seja possível viver algo puro e verdadeiro, mesmo com 23 quilos de bagagem atrás de nós. A bagagem fica para trás e novas histórias de amor tomam um lugar, talvez até mais intenso que o anterior. É a maneira de encarar, de agir, de questionar que invejo. Penso que, quanto mais nos desiludimos, mais facilmente somos capazes de deixar passar um toque no braço sem lhe dar importância. Toque esse, que era daquela pessoa, da nossa pessoa, da pessoa que estávamos à espera. Mas não a vimos, não a sentimos, porque parámos para pensar. Fugimos, porque: "não, nem pensar, não me quero magoar outra vez, vai ser só mais um falhanço". Andamos então de olhos vendados, mas sempre à procura. Abrimos os olhos e não vemos. Quando damos a mão, caímos. Dá a sensação que andamos sempre à beira do abismo. E cair? Cair outra vez, nem pensar! Dizes tu...

Todos caímos outra vez, está na nossa natureza. Que piada teria se não caíssemos e se não tivéssemos vertigens? Vale a pena. Sei que vou cair, cair e cair mais uma vez. Nas entrelinhas, peço mais um bocadinho de romance.

Sem exageros, sem convenções cavalheirescas. O mínimo de romance fica sempre bem. Lá por ser óbvio o que uma pessoa quer da outra... Que cada abordagem faça lembrar por uma fracção de segundo, os miúdos sentados no banco de jardim. Que cada abordagem demonstre o mínimo de esforço e originalidade para a evitar que nos sintamos como meros objectos em forma de corpo humano. Que arranque uma sensação positiva, nova, explorável. 

Só um bocadinho mais de romance. Por favor. 

quinta-feira, dezembro 04, 2014

A Maria

A Maria tinha um jeito de mexer no cabelo. Um jeito que me deixava louco.
A Maria tinha um jeito de ajeitar as calças ao andar. Um jeito que me fazia sorrir.
A Maria tinha um jeito de morder o lábio ao dizer algo em tom de brincadeira. Um jeito que me dizia para a beijar.

A Maria gostava de cantar quando sabia que ninguém a estava a ouvir.
A Maria gostava de dançar em frente ao espelho, ao som daquela música que nunca admitiria venerar.
A Maria gostava de sair sozinha e cambalear pelas ruas cheias de gente, observando tudo e todos, sem nunca deixar que a vissem a ela.

A Maria era uma sonhadora.
A Maria era uma criança em corpo de adulto.
A Maria era uma rapariga complicada com desejos simples.

A Maria não gostava de conversas banais.
A Maria não se contentava com pouco.
A Maria não deixava que ninguém a conhecesse.

A Maria foi levada pelo vento e deixou-me de mãos vazias, coração ferido e espírito perdido.
A Maria era assim.

Sorte a tua, se a encontrares.

sexta-feira, novembro 28, 2014

Sparkles Dance

"Do you remember how the electric spark that we felt when we first touched never went away?

That lightning lives inside me still and will always shock you ever so slightly when any piece of me touches any piece of you for no reason at all?

Put your fingers to mine and watch the sparkles dance."

quarta-feira, novembro 19, 2014

Um Papel que Encontrei

Está tudo tão vazio. Pensamos que estamos bem, mas não estamos. Pensamos que alguma parte da vida começa a girar a nosso favor, mas não começa. Desilusão atrás de desilusão. Acho que é o que eu mereço. Devo ter escrito isso um dia nalgum lado. Uma sombra teima em pairar em cima de mim. Uma folha em branco é preenchida por palavras para de seguida ser amarrotada e atirada para a chuva, onde se desfaz. Nunca existiu.
Eu nunca existi. Alguém me escreveu. Mas fui tão mal escrita que sou apenas um fantasma daquilo que foi imaginado. Sim, eu. Tenho a mania que sou forte. Tenho a mania que aguento todos os pontapés, mas, no fundo, sou mais frágil do que uma flor seca. Só conto as folhas. Essas também deviam estar a ser aproveitadas por alguém mais digno. Não tenho o valor que o escritor ambicionou. Gosto de quem sou, mas não do que tu vês. Tu nem sequer existes.
O passado morreu. Morre sempre. Quase já não o sinto. Praticamente já nem me sussurra ao ouvido. Era. Foi. É tudo tão estranho. Demasiada intensidade, dizia alguém. Sim. Tanta. Pior inimiga, sempre.
Escreve. Escreve, que assim limpas a alma. Se o meu retrato envelhecesse e mostrasse a minha (sua) expressão com tudo o que flui cá dentro, seria a imagem mais feia do mundo.
Espera. Nada disso ela é. Tão poucos. Tão poucos sabem.

quinta-feira, novembro 06, 2014

Vi uma Borboleta com Asas de Joaninha

Tanto falaste em borboletas que elas começaram a aparecer. Chegaram disfarçadas. Umas em forma de número, outras em forma de beijo lento. Umas, mais óbvias, escritas numa canção. Até "borboleta" ele te chamou.
Contos de fada... Não, não existem. Mas as borboletas, elas sim, voam por aí depois da metamorfose. E acho que foi isso que ele viu em ti. Viu-te deixar o casulo. Foste como uma lufada de ar fresco na vida dele. Mas, no final, ele não soube lidar com a tua metamorfose. Não te conheceu submissa. A primeira vez que pôs os olhos em ti, já tu estavas na fase final de mudança.. A primeira vez que te viu sentada no café ao fundo da rua apinhada de gente, já tu tinhas uma das asas de fora. "Era impossível não reparar em ti, foste a primeira pessoa que vi" - como com qualquer elogio que recebes, olhaste para baixo e sorriste. 
Toda confiança que te caracterizou, foi-se apagando à medida que mostravas mais o que as tuas asas escondiam. "É o que de mais genuíno há em ti". 
Tiveste muito medo.  
Os bons momentos voam quando os estamos a viver. E os vossos voaram, foram cinematográficos. 

Saíste de casa triste naquele dia em que só o sol te aquecia o corpo. E na relva, esvoaçava uma borboleta. Tinha as asas vermelhas com pontos pretos. Nunca tinhas visto uma borboleta com aquelas cores, com aquelas asas. Pousou em várias flores, folhas, ramos até desaparecer por entre os arbustos. Era uma borboleta com asas de joaninha. Eras tu. 

quarta-feira, outubro 29, 2014

E o Adeus?

Chovia muito. Chovia a potes, cântaros. Chovia mais do que todas as expressões usadas para descrever uma grande chuvada.
Os dois, de roupa encharcada, cabelos molhados, olhos embaciados pelas gotas de água que lhes caíam em cima. Os dois a olhar um para o outro no meio daquele dilúvio. Nem um, nem outro mostrava intenção de entrar em casa. Nem um, nem outro sabia como, ou, queria sair dali. O verdadeiro dilúvio estava a acontecer dentro deles. Sentiam tanto um pelo outro, mas não o suficiente para o saber expressar. Sentiam tanto um pelo outro, mas havia qualquer coisa que os impedia de abrir o espaço necessário para sentirem ainda mais.
O céu chorava por eles a tristeza da separação quase certa. Eles continuavam a olhar-se, a tocar-se, a sentir-se. Para quê? Porquê? Larga-me! Sai!
Nenhum dos dois se movia. Pensavam que se se deixassem estar tempo suficiente, uma ponte se construiria entre o abismo. E, por muito frágil que a construção fosse, lentamente aprenderiam a caminhar por entre as suas fragilidades e criariam assim as suas memórias, juntos.
Mas não foi assim. Estava tudo escrito de outra forma.

Parou de chover. Eles soltaram-se um do outro. Viraram as costas e caminharam em sentidos contrários. Não disseram adeus.

terça-feira, outubro 07, 2014

O Que Morreu e O Que Ficou

E como uma vez alguém disse: "O que mais custa não é tanto lembrar - é não esquecer. O que é que se faz com o que nos fica na cabeça, quando já não há nada para fazer?"

Até há bem pouco tempo, não sabia como responder a esta pergunta. Não sabia o que fazer com o que me ficou na cabeça. Na verdade, continuo sem saber responder. Penso que nem tu, nem eu, alguma vez saberemos.

Existe um tempo. Existe um espaço. Existiu um tempo. Existiu um espaço. Tudo era diferente: o sabor da comida, a percepção de um filme, a diversão, o cheiro de um cheiro, o prazer em todas as suas formas. Quando a vida decide dar uma cambalhota e remexer as marionetas da nossa cabeça, começa a mudança de percepção. Quantas destas teremos de aturar enquanto respiramos? Boa pergunta. Muitas de certeza. E em cada uma delas, haverá um sentido escondido.
Sentidos escondidos. Tão bom quando eles se revelam. Tão mau os caminhos que se tem de percorrer para os encontrar. Sim, óbvio. O caminho é essencial, o caminho é que nos molda. Mas também somos nós que escolhemos e fazemos com que este seja mais curto ou mais comprido. Por muito que pareça que nada podemos fazer, é mentira. A maneira de encarar as bifurcações permite criar este ou outro atalho, encontrar mais esta ou aquela parede.
Fácil falar quando a tempestade passou. Fácil dizer para agirmos de acordo com o que é melhor para nós. Mas quando a cambalhota acontece, cada um é que define o seu tempo, cada um reage como é capaz, cada um... Somos todos diferentes.

E o que é que se faz com o que nos fica na cabeça? Testa-se. Toma-se uma atitude para perceber se é realmente algo com presença suficientemente forte para nos afectar as entranhas. Se for forte, está tudo fodido. Se não for, é como que uma limpeza da alma. O sol ou as nuvens aparecem todos os dias, mas já não se olham como antes. O sabor da comida ainda trará consigo uma lembrança, mas aprende-se a saborear de novo. Um filme será apreciado, sem que a fotografia que de nós lá encontramos, traga mágoa. A diversão é vivida com uma nova intensidade, mais genuína. Um cheiro... Um cheiro vai sempre transportar-nos a um momento do passado. Fecha os olhos, sente e sorri até ele desaparecer do ar. O prazer, esse volta, renova-se e os sentidos agradecem todas as novidades.

Não se apagam memórias, há sempre algo que nos fica na cabeça. O segredo? Encontrar o sentido escondido. Aprender a transformar a memória que nos espreme os sentidos, numa lembrança boa, num segundo permitido de reminiscência saudável. Que nos faça lembrar que hoje, somos isto, por culpa dessa memória. Que se pense em forma de cliché: que sou mais forte, que é isto que quero ser, que me descobri.

O que morreu, morreu porque tinha de morrer.
O que ficou, ficou porque foi bom.
A única certeza: A vida vai-se escrevendo certa por linhas tortas.

quarta-feira, outubro 01, 2014

Entre as Onze e a Meia Noite

Lá estava ele.

Entre as onze e a meia noite, chegava sempre o momento de fumar o seu cigarro na varanda. O único do dia, o único que não deixou que a outra lhe tirasse. Compromissos fazem-se. Compromissos pagam-se. Tem conseguido cumprir, menos quando está com os copos e quando a outra fica em casa a dormir. Quando bebe fuma e quando fuma bebe. Sim, para o cigarro não se sentir sozinho a percorrer as suas entranhas, ele junta, ora gin, ora cerveja. A outra aprendeu a tolerar, apesar de ficar sempre a remoer sobre o porquê daquele vício quando o vê passar pelo sofá entre as onze e meia noite, em direcção à varanda.

Lá estava ele.

A acender o cigarro depois de ter dado o primeiro gole de cerveja ou de gin. Olhou para baixo, para a roupas que trazia vestidas e não se reconheceu. Compromissos fazem-se. Compromissos pagam-se. A outra deu-lhe tanta roupa nova, tem de a usar senão parece que não gostou. Para além disso, já reparou que quando veste alguma das suas roupas antigas, a outra não é capaz de o elogiar.

Lá estava ele.

O cigarro vai a meio. O copo já está vazio. Ele já não se sente no presente. Sente-se acorrentado a um futuro que não deseja. Parece que tudo aconteceu de um dia para o outro. Pensava-se feliz com a outra, pensava-se feliz com as decisões que tomou para si. Só agora percebeu que tudo o que fez, tudo o que criou, foi sob pressão. Uma pressão que ele gerou por si próprio, uma pressão desnecessária. Deixou-se apoderar por um medo inconsciente de ficar sozinho. E agora? Compromissos fazem-se. Compromissos pagam-se.

Lá estava ele.

Com o olhar perdido no espaço. O cigarro apagou-se sozinho. Voltou a si quando reparou que a luz da sala já não estava acesa. A outra foi-se deitar. Não lhe disse nada ou talvez tenha dito. Sei lá. Ele estava ali, mas a sua alma pairava bem longe. Será que a outra reparava se ele fugisse? Sim, claro que reparava. Mas ele tem a certeza que ela sabe que ele nunca foi seu. Deu apenas a entender que lhe pertencia por um curto espaço de tempo. Ingénuo. Só agora chegou à conclusão que a utopia não existe e que se existir, acontece naturalmente. Não assim. Não como ele agiu. E lentamente a ficha cai.

Lá estava ele.

Ancorado à infelicidade que tem vergonha de admitir.
Entre as onze e a meia noite.
Todos as noites.
A fumar o cigarro que a outra (ainda) não lhe tirou.
A beber a cerveja ou gin.
A relembrar tudo o que deixou para trás, tudo o que perdeu.
A desejar nunca ter afastado o verdadeiro amor da sua vida.
Porque no fundo, sabe que só esse amor, que nunca esqueceu, o acompanharia sempre, na varanda, com o cigarro, a cerveja ou o gin.